Créditos

Ele estava desesperado pela vitória, daria tudo para obter a última das 6 chaves do Portão e entregava seu corpo à alquimia para isso. Literalmente no fundo de um poço, ele esbravejava pela própria vida e por uma chance de sair dali. Foi transformando tijolos em degraus que pudesse precariamente escalar, começou a subir enquanto os cortes ao longo do corpo doíam como agulhas e logo caiu. Não passou por sua mente nem por um instante a ideia de desistir. Levantou-se e cuidadosamente galgou os tijolos até o topo. Para sua própria surpresa, não se lembrava de ter estado naquele ambiente que via na superfície. Havia uma cabana com paredes altas e em volta uma floresta. Uma vaca pastava perto do poço e o confuso homem, com o melhor equilíbrio entre prudência e agilidade que conseguiu ter naquele estado, desenhou um círculo alquímico na terra ao redor de um dos cascos do animal e, pedindo desculpas mentalmente, iniciou a transmutação da perna bovina em carne para curar as feridas.

O alquimista obrigou-se a matar a vaca por misericórdia e caminhou em direção a colinas que via além de um pequeno trecho de mata e que poderiam servir para encontrar uma cidade. Seguiu sem grandes sobressaltos até encontrar um homem dormindo com uma garrafa de bebida na mão e algo pendurado no pescoço que chamou toda a atenção do viajante, a pedra filosofal, um artefato mítico. Sem pensar antes, ele tomou a pedra do adormecido para si. Imediatamente veio a ele uma lembrança e ele correu de volta até a cabana. A porta tinha uma chave enfiada.

O ansioso rapaz, agora ladrão, segurou a pedra e a chave ao mesmo tempo, a transformando de prata em ouro e a reconhecendo como igual às outras 5. Ele enfiou a chave de volta na porta, a girou para abrir e…

Recuperou as memórias do que estava de fato acontecendo. Há vidro escuro diante dos olhos, a sensação de braços de pele macia em volta do corpo e finalmente a voz doce pergunta:

– Viu? Conseguir aquilo que se deseja ardentemente às vezes é só o começo, um abrir de olhos para o que realmente importa.

O homem pensativo tira os óculos de realidade virtual e vê uma máquina de arcade cuja grande tela mostra os créditos do jogo e cujas 6 lâmpadas amarelas em formato de chave estão acesas. O abraço era sua namorada que comprara aquele aparelho. Ele simplesmente a beija enquanto sua mente absorve o impacto de ter corrido tanto atrás de um nada, de que o sentido de sua busca precisa ser refeito. Por um instante ele se vê um espectador distante do mundo, alguém que já tem tudo que poderia querer e por isso vai se conformar com o que vier.

No entanto, apesar dessa paz, ainda há o que obter e o que preservar para fazer justiça àquilo que trouxe a epifania de ver que está tudo bem.

Não no mundo da alquimia, mas nos jogos que o alquimista nunca quis muito jogar porque eram sobre sua própria vida e rotina.

O jogador vencedor chora diante da bela mulher. Ela pergunta o motivo e ele responde:

– Porque eu não quero mais sair daqui, deste momento, da libertação dos medos que já senti. Agora a dúvida sobre falhar ou vencer perdeu o sentido.

– Eu também não quero sair daqui.

– Essa é a melhor parte.

“O tempo tudo transmuta e a troca nem sempre é equivalente, mas parar e lamentar isso é perda de tempo”, pensa sonolento enfim.

As luzes do quarto apagam-se e o casal dorme, o que aguarda no dia seguinte é o de sempre, mas isso não é ruim.

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