Portadores da Sorte Irônica

 

Ela era uma pessoa inspiradora, seu jeito de andar transbordava confiança e seu sorriso denunciava ternura. Seu nome era Ciana e ela caminhava no deserto com uma espingarda. O Sol não a queimava e ela prosseguia determinada a encontrar um novo lar. Sua cidade natal fora destruída por vampiros e ela tornara-se uma caçadora.

Nada parecia ter sombra ali naquele terreno escaldante, mas a esperança era uma luz distante. De repente, surgiram da areia insetos gigantes lembrando uma mistura de barata com louva-a-deus. Ciana atirava e os parava, mas havia muitos deles e ela estava sozinha. Ela foi derrubada e, ao olhar para o céu, viu contra a luz um formato de morcego que revelou depois ser uma espécie de asa-delta de madeira e couro cujo dono era um homem completamente coberto por roupas. Ele fez um vôo rasante e, sem nenhuma lâmina visível, cortou vários dos adversários da mulher.

– O que uma bela como você faz nestas terras esquecidas?

Ela atirou nos últimos insetos e respondeu:

– Eu não tenho exatamente para onde ir.

– Conheço um lugar, não é perfeito, mas você pode gostar.

– E o que me autoriza a confiar em você?

– Eu acabei de salvá-la e você não tem muitas opções. E se aparecerem mais insetos?

– Tudo bem, mas se você tentar me enganar, não espere um tratamento gentil.

O incógnito homem abraçou Ciana e decolou com ela. Não acostumada a ter os pés longe do solo, ela se assustou. No ar, ela foi capaz de ver a real dimensão do deserto e um pouco do que havia em volta. Sobrevoando a região de areia mais plana, ele esticou a mão e ergueu-se uma fina torre branca. Depois que ela atingiu a máxima altura, os dois aterrissaram em um dos andares mais altos, manobra que, apesar de segura para ambos, destruiu a asa.

Ciana, apesar de desconfiada de seu benfeitor, logo adormeceu por força do cansaço. Quando acordou, já era noite e a visão que ela teve foi de parar o coração. Sua cabeça estava apoiada nas pernas do homem, que agora estava sem as proteções no rosto. Sua pele era fina e frágil, suas feições delicadas e seus olhos grandes e dourados.

– Vam…pi..ro?

– Acho que vocês me chamariam assim, mas pode não ser bem o que você pensa.

A expressão dela contraiu-se e seu punho esquerdo fechou-se.

– O que em você é diferente dos sugadores de sangue que jurei punir?

Ele riu e respondeu:

– Sangue não é minha necessidade.

Para completar a surpresa, ele beijou Ciana na boca. Ela perguntou-se como tudo aquilo era possível e que tipo de infortúnio a esperava. Depois do beijo, ela perguntou qual era o nome dele.

– Um dia já tive outro nome, mas atualmente sou conhecido apenas como A.

Ele a chamou para observar a vista da torre. Eles haviam subido um pouco no vôo para chegar àquele andar e era possível ver mais longe, por isso o horizonte já mostrava o mar, infelizmente escuro e confundindo-se com o céu noturno. Ela viu uma cidade brilhante em uma ilha ao longe e decidiu que aquela seria sua próxima parada. A contemplou a paisagem e disse:

– Somos sortudos por estarmos aqui, já parou para pensar nisso?

– E se eu estiver arrependida apesar de tudo?

– Você não parece arrependida.

A, o suposto vampiro, beijou Ciana mais uma vez e a noite prosseguiu calma com os dois enxergando um ao outro através do brilho da Lua.

Ao amanhecer ele já estava com suas proteções de volta e avisou que alguém perigoso aproximava-se. Explicou que aqueles que haviam destruído a terra natal dela e que ela chamava de vampiros eram as crias da Ira e havia um dos mais perigosos deles por perto buscando mais uma vítima. Já o próprio A era uma cria da Luxúria e podia alimentar-se como um humano, mas era preso pela maldição de ter que fazer o que fez com Ciana para preservar a sanidade.

Um grande impacto foi sentido vindo da base da torre. A mulher não sabia bem do que se tratava, mas podia suspeitar por sentir uma vaga familiaridade naquilo. Mais alguns estrondos e a torre veio abaixo dando ainda tempo o bastante para os dois saltarem em segurança por pouco apesar do ângulo difícil e de alguns escombros.

O que eles encontraram no chão foi um ser também coberto por vestimentas, esse grande e musculoso, era possível entrever seus olhos amarelos brilhando por atrás dos tecidos. Ciana atirou no inimigo, que não pareceu ser afetado. A, o questionável benfeitor, atacou o vampiro com sua lâmina invisível, que dessa vez pareceu feita mesmo de ar. O adversário por sua vez agarrou A e arrancou todas suas roupas, expondo sua pele frágil ao Sol. Queimaduras começaram a surgir imediatamente enquanto ele emitia gritos desesperados.

Eis que chegou, atraído pelos sons, um outro homem em uma moto, um sobrevivente vindo do mesmo lugar que Ciana. Ele atirou com pistolas no vampiro, que soltou A por instantes. Então ela reconheceu aquele sobrevivente como um amado de outros tempos. Os dois, vendo que não havia muita salvação contra aquele monstro e que aquela seria a última boa coincidência que viveriam, beijaram-se apaixonadamente.

Ao mesmo tempo, A observava no chão em sua agonia aquela cena. Seus olhos acenderam-se totalmente e o vampiro foi jogado para longe. Ele disse diante dos olhares incrédulos:

– Em nome de tudo que eu vi neste mundo, é hora de reconhecer o que me resta, as últimas forças acumuladas ao longo dos anos.

Com um sorriso insano, completou:

– Meu fim está sendo belo, mas a última dança não será de amor e sim de guerra.

Assim, apesar de seu estado deplorável e aparência humilhada, ele voou mesmo sem asa até o monstro e, sem tocá-lo, o despedaçou lentamente enquanto suas próprias queimaduras aumentavam. Ao final, A foi ao chão com o rosto para cima e, em seus derradeiros momentos, contemplou o Sol e a ironia de ter tanto e tão pouco ao mesmo tempo, uma ironia que não pertencia só a ele.

O casal sobrevivente dirigiu-se na moto em direção à cidade que Ciana havia avistado antes. Lá construíram uma vida nova, uma família e reconquistaram um pouco da glória de seus ancentrais. Na janela do lar dela, observando as luzes noturnas, um gato preto de olhos amarelos com uma coleira contendo a letra ‘a’ escrita.

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