Memento Mori et Vitae

Era um dia comum na cidade que desconhece estações, um homem olhava a paisagem pela janela: grandes edifícios e uma vista para o mar conseguida por mero acaso. Assim ele via a vida, considerava que toda  beleza ou alegria era um acaso a ser intensamente apreciado enquanto era possível.
Preparava-se para uma viagem ao interior, nada pretencioso, apenas uma visita a familiares queridos. Um deles era um tio engenhoso, mas que não teve tanto acesso a uma educação formal, os outros eram os filhos dele. Um rapaz entusiasta da aviação e da astronomia, ele tinha um grande telescópio e aproveitava que as redondezas pouco tinham luz artificial para fazer longas observações do céu, e uma jovem que preferia a estética da narrativa e colecionava livros.
O caminho, que costumava ser rico em vegetação vistosa, agora estava muito mais seco, mas a casa do tio continuava acolhedora como sempre.
Ao chegar lá, o homem da capital foi bem recebido por todos. Conversas sobre religião e ciência ocorreram e, em seguida, ele manifestou curiosidade sobre a arte que preenchia os dias da prima que já não via há muito tempo e abraçou com vontade. Uma demonstração de rádio a válvulas depois, já era noite e ele e o primo foram olhar as estrelas. Eles apontaram o telescópio para a Lua e o visitante logo comentou:

– Somos priviegiados ao ter chance de viver como vivemos e ver o mundo como vemos.
– Muitos vivem acreditando em fábulas sem entender a história que a ciência conta e que está além da criatividade.

Ambos, apesar do ar de entendidos sobre a vida, não que a contradição seja tão grande quanto se possa supor, nunca foram bem-sucedidos no campo socioeconômico e sequer eram independentes financeiramente.

Eles apontaram o telescópio para Andrômeda, que só podia ser vista naquelas condições. Era a primeira vez que o astrônomo amador conseguia uma observação tão boa daquela galáxia. Eles estavam se deleitando com a visão, mas de repente algo começou a parecer distorcido. Seria aquilo fisicamente possível? Os admiradores da abóboda celeste murmuraram lenta e perplexamente em meio aos ventos gelados e um distante uivado de cão: “buraco negro?”.

Os dois entraram na casa, onde os outros já se preparavam para dormir, e verificaram o site da NASA. O fim do mundo estava marcado para 12 horas a partir dali. Sem saber muito o que fazer e sem dizer uma palavra, foram até a sala e, mesmo no escuro, ligaram o teclado e tocaram parte da nona sinfonia de Beethoven. Uma tênue luz azulada iluminou o piso liso, era o celular da jovem que tinha sido acordada e saía do quarto. O velho relógio de pêndulo da casa badalou.
Não tiveram coragem de explicar para ela o que estava acontecendo, mas ela soube que eles não dormiriam naquele momento e os três pegaram comida nada saudável, refrigerante e foram ao quarto jogar no computador, onde a Internet já não funcionava, um velho jogo de um encanador que pula.

Sons de impactos começaram a chegar ao trio, o céu foi dominado por um espetáculo de luzes que lembrava fogos de artifício, mas sem tanta variedade de direções. Então gritos foram ouvidos, o tio e sua esposa foram acordados e misteriosamente os três cães da casa ficaram agressivos. Novamente o relógio badalou.
Um dos cachorros mordeu o visitante, mas logo os bons caninos foram distraídos por outra coisa, homens aflitos e sedentos por aproveitarem suas últimas horas chegaram e arrombaram a porta. Por um instante, o astrônomo amador viu o que parecia ser o gás de Júpiter sendo absorvido. A terra começou a tremer.
A partir daquele momento, o caos imperou. Houve luta entre os cães junto com o tio do homem da capital e os invasores. Os invasores tentavam atacar as mulheres da casa, mas falharam pois estavam sendo derrotados. Um deles tinha uma seringa com algum tipo de veneno. O visitante tentava evitar que esse chegasse aos primos, mas o estranho desesperado atingiu o braço do hóspede preguiçoso da casa antes de cair ao ser atacado por um gato.

Os impactos estavam cada vez mais próximos. Todos se abraçaram se lembrando dos bons momentos que tinham vivido ali.

O veneno havia se espalhado rápido, então a expressão daquele que tinha sido acolhido ali por aquele dia se tranformou da calma para um sorriso melancólico. Os outros sabiam que era o fim e choraram.

– Não chorem, pelo menos não por mim, foi tudo de uma beleza única e vou sem me arrepender. Vocês sabem que existe uma vantagem desleal em saber que a morte se aproxima? E por quê? É porque assim eu posso finalmente dar um calote na vida, viver um momento que pese mais do que toda a existência e não pagar o preço.

Tendo dito isso, ele fez o impensável nos dias normais, mas estranhamente plausível naquele, beijou a própria prima e desmaiou vítima da própria emoção e do veneno, que, com a ajuda do aumento das batidas do coração, terminou que consumir seu corpo.

Aos sobreviventes restou um segundo de indignação, outro de luto e uma eternidade psicologicamente de contemplação do céu implacável na qual eles sentiram o sentido da vida como se fosse o sangue em suas veias. O relógio badalou doze vezes.

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