Os nadadores da areia

Aquela era conhecida como uma das melhores escolas do mundo, dizia formar pessoas aptas e de bem, seja lá o que isso for no caos em que todos vivem. Em uma tarde ensolarada, Fina, uma garota de 12 anos, caminhou distraidamente pelo terceiro andar durante o recreio e encontrou em um dos bancos um homem com a barba por fazer, ele estava vestido com um dos uniformes antigos da escola levemente rasgado pelo tempo. Ela olha assustada para ele, que diz:

– Eu voltei para proteger este lugar.
– Proteger do quê?
– Da singularidade.

A pequena nada compreende e chama um segurança da escola para expulsar o homem louco.

No dia seguinte aparece uma mulher em condições semelhantes
perto da escada principal do primeiro andar. Fina pergunta:
– O que são vocês? O que é a singularidade?

– Nós somos aqueles que não souberam ir embora. Aqueles que ficaram. Os que insistem em lutar contra o fluxo inexorável do tempo que tudo muda cada vez mais rápido. Nadamos na areia enquanto ela diz: “não insista”.

Depois disso, um robô vigilante experimental detecta que a mulher não era autorizada a estar ali e soa um alarme. Um segurança leva as duas.

Fina é questionada em uma sala isolada sobre seus encontros com os intrusos. Sobre se eles disseram algo estranho e se havia algum motivo para ela estar por perto em ambas as ocasiões.

-Sim, eles são ex-alunos daqui, Fina. Estão formando uma espécie de resistência contra as novidades que nos fazem esquecer aquilo que já se foi.

– Mas mudança é progresso e todo mundo quer progresso, não?

– Nunca foi tão simples assim, pequena, e por isso tanta gente sempre brigou.

Naquele momento toda a eletricidade foi cortada e as luzes se apagaram. No entanto, aquilo não era exatamente possível já que havia geradores bem protegidos no lugar. Dois minutos depois, podia-se ouvir gritos ali.

O coordenador que conversava com Fina apenas viu um vulto fantasmagórico levando a garota.

A pessoa que havia levado Fina era o homem do primeiro dia. Ele disse que a menina deveria contar aos colegas que a empresa responsável pelo colégio estava ligada a um grupo maior que se beneficiava de iludir as pessoas sobre a ideia de progresso.

– Por que eu?

– Pela maneira como você nos olhou.

Fina fez o que o homem disse. Muitos diriam que ela era muito jovem e portanto muito influenciável. Isso talvez seja verdade, mas o fato é que a história se espalhou, Fina foi expulsa e formou-se um levante entre os alunos contra a política da escola.

Um embate se estabelecia, por um lado, qual era o sentido de sacrificar continuamente tantas coisas em nome de um mundo melhor que nunca chegava? Por outro, se a questão era a perda do passado, quem pode evitá-la visto que essa é uma lei da natureza? Mesmo que tivéssemos uma máquina do tempo ideal, isso apenas trocaria os papéis entre passado e futuro.

Pelo impasse, poucos frutos vieram desse embate.

Fina viveu sendo condenada por seus atos até um dia retornar ao colégio vestindo o mesmo uniforme de quando foi expulsa. Declarou-se uma nadadora da areia como aqueles que haviam lhe aparecido anos antes. E assim como antes acontecera com a mulher de uniforme, ela foi levada por um segurança. Ao chegar na sala do novo coordenador, ela soube do destino dos nadadores da areia, que acabaram sendo executados pela polícia.

-E o que será feito comigo?

-Você verá o progresso.

-Como assim?

-Nossos chefes são parte de um conglomerado que financiou um projeto de motor de contração espacial, você será a primeira humana a testar. Com sua velocidade em relação à Terra tornando-se ao menos uma certa porção da que a luz atinge, você poderá avançar no tempo e retornar à Terra. Você levará informações sobre o mundo atual e, se houver civilização, será capaz de passá-la a eles. Você será ao mesmo tempo progresso e preservação.

E por esse meio, Fina pode visitar o futuro. O que acontecera foi que a civilização entrou em colapso, mas uma nova surgiu. Aos poucos haviam sido encontrados vestígios do conhecimento do glorioso passado incluindo uma verdade tenebrosa: o, ainda distante, porém inevitável, fim da Terra. Tal descoberta incentivou a busca pela restauração da capacidade da humanidade para escapar do planeta um dia. Fina, apesar de concordar em parte com essa escapatória, mais uma vez foi uma nadadora da areia, uma oposição ao avanço descuidado. No último dia de sua vida, ela descobriu um pequeno texto escrito pelo homem que ela encontrou naquele dia no colégio, ele dizia: “não importa pelo que você lute, não esqueça de apreciar este mundo”.

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